Quando a fotografia vira arte? É o resultado do julgamento de terceiros? É o reflexo da carreira construída? É sobre o ponto de vista de cada um?

Teoricamente falando a fotografia começou a ser considerada arte em 1890, com o movimento pictorialista. Já nessa época os fotógrafos ousavam fazer algo que não fosse um simples registro documental da realidade, trazendo características da pintura para as imagens, trazendo personalidade, mesclando fantasia e realidade. Eu fiquei bem feliz em saber que uma das precursoras desse movimento foi uma mulher, a fotógrafa Julia Margaret Cameron. Ela ousou trazer uma estética diferente, ousada, bordas desfocadas, tons cênico e foco diferencial e por isso era considerada pela comunidade fotográfica como excêntrica.

Não foi fácil vencer a barreira dos pintores e pensadores, que achavam um absurdo a fotografia ser considerada arte e aliás, uma bela concorrência. Boudelaire dizia que a fotografia era “o inimigo mais mortífero da arte”.

Nós, humanos, somos assim. Quando chegam novidades, novas tecnologias, a primeira tendência é negar, até mesmo pela sensação de segurança que o conhecido nos traz, pra depois aceitar e ver o que aquilo tem pra nós. Eu mesma demorei muito para migrar do analógico para o digital (isso é assunto pra outro texto). Mas o processo é longo e a história da fotografia enquanto arte passa por diferentes processos até chegar ao patamar em que está hoje.

A arte pode ser puramente estética. Mas no meu ponto de vista, arte é aquilo que toca de maneira profunda em outros lugares, não apenas a estética. Uma obra de arte pode ser visualmente elaborada ou minimalista, mas ela carrega sempre algo mais, evoca lembranças, sensações, cheiros e desejos. Mexe com os sentidos. Traz alguma coisa em si que transporta.

Escolhi trazer pra ilustrar esse texto uma obra de arte de minha autoria. Sim, eu a considero uma obra de arte porque evoca em mim sensações e ao mesmo tempo fala do meu processo de vida e do meu ofício. Chama-se “Encontro” e faz parte da série “Desapego”.