Em agosto celebramos a amamentação. O nome é Agosto Dourado como uma homenagem ao padrão ouro do leite materno. Explico: na saúde, sempre que algo é o melhor possível em uma determinada situação, é denominado o “padrão ouro”, e quando falamos de nutrição de bebês o leite materno é, sem dúvida, o que há de melhor.

Esse assunto às vezes fica meio acalorado, eu bem sei. Sou embaixadora de uma das muitas campanhas de amamentação que rolam em agosto e sei que é um assunto polêmico. Parece que sempre tem alguém que sai ferido da história, seja quem não amamentou, quem amamentou menos, quem amamentou mais, enfim, como tudo nessa vida é difícil agradar a todos. E sinceramente não acho que precisa ser, porque amamentar é algo natural e humano, falar disso não deveria ser um lugar de dor para ninguém.

Vejam bem, natural não quer dizer que já vem pronto, que nenhuma ajuda é necessária em nenhum caso, que todo bebê por puro instinto vai começar a mamar direitinho e toda mãe se sentirá muito feliz em estar amamentando independente das circunstâncias “porque o instinto materno reina”. A banda não toca bem assim não. Ainda assim, é natural. É o caminho pelo qual os mamíferos em geral alimentam suas crias inclusive.

Chamamos popularmente os primeiros meses do bebê sendo amamentado de Lua de Leite. Qualquer semelhança com a Lua de Mel pós casamento não é mera coincidência. E, se você já se casou, sabe muito bem que dá vontade, de vez em quando, de dizer que é lua de limão, porque ainda que seja um período doce sim é também a hora de conhecer melhor o outro, que muitas vezes não é bem do jeitinho que a gente idealizou. E aí está o pulo do gato, o outro não é mais certo ou mais errado, ele é diferente do que a gente imaginou que era, dentro de uma relação que a gente idealizou – exatamente o que acontece com a amamentação, o bebê não é mais ou menos bom em mamar, a gente é que romantizou um pouco a coisa toda e precisa lidar com o que as coisas são de verdade; nesse caso possivelmente com umas noites sem dormir nas costas, pra ser mais emocionante.

O maior problema que já presenciei na amamentação, salvo questões físicas que precisam de auxílio especializado e quase sempre podem ser contornadas, é lidar com a diferença entre a propaganda de margarina e a vida real. A hora que se dá conta de que aquela foto amamentando e sorrindo é muito diferente do cabelo despenteado, do sono acumulado e da dor de amamentar no início, a mulher entra num lugar bem sombrio e precisa de muito apoio pra seguir em frente. Sejamos apoio, sejamos rede.

Se você está nesse momento no início da amamentação eu te digo com muita certeza: melhora tanto que um dia qualquer, daqui um tempo, você vai pensar que pode não ser a propaganda de margarina mas é bem incrível o vínculo criado. E se você não está nessa fase, mas já esteve, não esquece não! Seja a mulher que dá a mão para a outra nessa hora. Todo esse papo de militância, de brigar por direitos da amamentação, de ser representante disso e daquilo é muito importante para que a sociedade entenda melhor a importância de defendermos o direito de mães amamentarem e bebês serem nutridos com leite materno. Mas sabe o que muda o mundo mesmo? Cada pequeno passinho que damos em direção de ajudar uma mãe, de visitar uma amiga recém-parida e dar apoio e colo, de efetivamente contribuir para mais um ser humaninho ser amamentado por mais tempo possível. Quem ajuda uma mãe a amamentar, ajuda todas.

Ajude estando lá por ela, escutando ela no telefone, explicando que é meio complicado pra todo mundo e não foi ela que veio com defeito de fábrica. Ajude ela a perceber que todo mundo que está numa fase estável da amamentação passou, quase que inevitavelmente, por essa tormenta inicial e aprendeu como conseguiu a estabilizar seu barquinho.

E como ajudar nunca é demais, se você amamenta e tem leite sobrando por aí, doe. Os bancos de leite ajudam muitas mães e bebês no começo de suas jornadas, e muitas vezes possibilitam que a amamentação da própria mãe seja preestabelecida. Só no ano passado, mesmo com tudo que aconteceu, mais de 180 mil mulheres doaram mais de 200 mil litros de leite materno, é leite pra caramba! E em 2021, até junho, já era mais de 110 mil litros – mesmo assim tem bancos de leite com estoques muito baixos, então ajude mesmo se puder.

O leite materno é um verdadeiro tesouro. A grande mágica da vida, quando um corpo cria o alimento perfeito para outro corpo que já está fora dele. Bom, isso se você acreditar que filhos e mães algum dia se desconectam, porque eu acho que não.