A maior parte de nós ouviu, desde muito pequeno, que a cabeça controla o corpo. E que o cérebro é quem comanda tudo que acontece dentro de nós. Salvo uns e outros que tiveram a oportunidade de ouvir sobre as possibilidades de uma inteligência emocional ainda na infância e adolescência, os nascidos antes da geração Z cresceram dando ao cérebro poder absoluto.

Hoje, nos idos de 2021, já temos muitas pesquisas e informação aberta sobre a vastidão de poderes que as emoções têm sobre nós. Até mesmo que o coração tem cerca de 40 mil neurônios já se documentou, o que permite que ele também “pense”. E não se engane, apesar dos neurônios do coração, ou neuritos, estarem em uma quantidade reduzida perto dos 86 bilhões de neurônios cerebrais, eles produzem um campo eletromagnético 5 mil vezes superior ao do cérebro. Ainda que para nós, que crescemos ouvindo sobre a regência absoluta do cérebro, isso tudo soe meio estranho, a verdade é que o que sentimos é tem o poder de alterar mesmo a nossa vida.

O cérebro nessa jogada? Por tanto tempo se considerou que tudo que era ou deixava de ser vinha dele porque ele controla tudo que é mecânico, óbvio, e também porque ele tem um jeitinho muito especial de lidar com o coração, permitindo que a gente se expanda pelas emoções ou limitando nossos passos com as crenças limitantes. Ou seja, ele não é o rei isolado, mas é aquele amigo que dá uns conselhos que a gente sempre segue, ora muito bons e ora uma desgraça.

As crenças limitantes são pensamentos que aceitamos como verdades mesmo que não sejam, porque pessoas em quem confiamos repetiram muitas e muitas vezes até que interiorizamos. Ou derivaram de interpretações nossas sobre coisas que deram errado com a gente ou com outras pessoas com quem nos relacionamos. São coisas em que acreditamos por influência dos outros ou do meio em que vivemos e, é tão certo para nós que sejam verdade, que não pensamos mais nelas e ficam registradas rodando em segundo plano. Só que acabam interferindo em muitas de nossas ações e decisões.

Se as crenças limitantes são informações que adotamos como verdadeiras, quando descobrimos que não são é só mudar de ideia certo? Não é tão simples assim… porque na maior parte das vezes não nos damos conta delas e porque elas vão se subdividindo em outras crenças que criam um emaranhado. Para nos livrarmos das crenças limitantes precisamos identificá-las e trabalhar em sua ressignificação, como se tirássemos ela do cérebro e preenchêssemos o lugar com a informação correta, o que dá um trabalho danado.

E o que as crenças limitantes têm a ver com a amamentação? Muita coisa! Muito mais do que imaginamos – até porque nem imaginamos a maior parte das crenças limitantes mesmo.

Quando meninas crescem cuidando de bonecas que trazem consigo mamadeiras e chupetas, e lhes dizem a todo tempo “cuide dele, dê a chupeta”, incorporam que assim são os bebês felizes e as mães felizes, se torna um modelo de cuidado. Então, quando se tornam mães e uns dizem para evitar os bicos artificiais para manter a amamentação enquanto outros dizem que os bicos “confortam e aliviam” elas tendem, inconscientemente, a dar ouvidos aos segundos, porque foi o que registraram. Como eu disse antes, o buraco é muito mais embaixo do que imaginamos. Muitas vezes dizer não aos bicos artificiais é dizer não a toda a construção sobre maternidade que a mulher teve. E, se ela mesma tiver usado bicos, isso se torna ainda mais complexo, porque as sensações que de conforto usando chupetas e mamadeiras também estão gravadinhas lá no fundo da memória pra dar suporte a essa crença.

O leite fraco é outra crença limitante horrorosa. Por anos e anos a indústria alimentícia bateu na tecla de que os leites artificiais deixam forte, aumentam peso (isso eles fazem mesmo né…), ajudam as crianças a crescer. Nós crescemos ouvindo isso, nossas mães já foram bombardeadas com essa informação. Então, a hora que o bebê chora sem parar, porque os bebês choram mesmo, essa crença entra em ação e fica lá no fundo da cabeça materna fazendo coro: está com fome, é o seu leite que é fraco.

Mas a pior crença limitante é aquela que faz relação entre o corpo da mulher – tamanhos e tipos de peito – e a capacidade de amamentar. Toda mulher pode amamentar, mas nem toda mulher sabe disso, é aí que mora o problema. O corpo da mulher é desmedidamente sexualizado em nossa sociedade, as gracinhas sobre mulheres terem peitos grandes e estarem “cheias de leite” correm a todo vapor. Não precisa ir muito longe, vide o nome artístico Jojô Toddynho, uma referência direta ao imaginário popular de que seios grandes tem conexão com amamentação, com o adicional da sexualização.

Isso cria três situações conflitantes na cabeça da mulher-mãe a partir das crenças limitantes: primeiro, como o mundo vai ver ela com seios aumentados, que tipo de correlação será feita? Ela não quer ser mais sexualizada do que já é amamentando, ainda mais mostrando isso por aí. Segundo, se ela não tem seios grandes ou tem bicos invertidos é claro que ela não pode amamentar, está fora do modelo que está registrado como padrão certo? E ela desiste antes mesmo de tentar. Terceiro, uma mulher moderna deixaria de lado parte de suas atividades para ficar por conta de um bebê, amamentando em livre demanda? Depois de tanto tempo pra construir uma carreira e ser reconhecida ela não quer ser comparada com uma dona de casa.

O próprio conceito de dona de casa é entrelaçado com as crenças. De repente a grande maioria das mulheres que tem uma carreira começaram a se sentir desrespeitadas quando são chamadas de donas de casa, quando de fato somos todas donas das nossas casas e dos nossos narizes. É a crença limitante de que a dona de casa é a mulher dependente e submissa ao homem que aperta o botão quando ouvimos isso. Não é sobre gostar ou não de ser chamada de dona de casa, é entender o porquê isso a tira do sério.

Para uma amamentação fluída e prolongada é muito importante cuidar de nosso emocional e das crenças limitantes que podem estar impedindo as coisas de seguirem seu fluxo natural: bebê mamando e mãe amamentando. Invés de exercícios meio absurdos sobre esfregar o peito durante a gestação, seriam muito mais úteis exercícios de conscientização sobre a naturalidade deste processo e a independência do tipo de corpo para que aconteça. Se você está nessa caminhada de amamentar e encontra dificuldades, respira fundo e procura dentro de você, talvez esses modelos estejam ali prontinhos para serem abandonados.

No mais, além de cuidar da nossa saúde mental percebendo onde estão as crenças que não permitem que amamentemos e sejamos as mães que queremos ser sem culpa, podemos cuidar para não inserir sem querer essas crenças nas novas gerações de meninas. O único jeito de romper com crenças limitantes é enfrentando-as. A forma de não as perpetuar é muitas vezes enfrentando nossos próprios hábitos e rompendo com as tradições que sabemos que não imprimem informações saudáveis no inconsciente, mesmo que tenhamos boas lembranças conscientes delas.