Outro dia, uma mãe me disse que, com a pandemia e a convivência extrema com os filhos, tinha chegado à conclusão de que era “inapta” para brincar.

Ela sofria com a demanda de atenção das crianças. Segundo ela, pela manhã preparava um canto para brincarem com massinha para brincarem enquanto cuidava das suas coisas. Depois desenhava um pouco com as crianças e corria para novas obrigações. Voltava e lia uma história. Corria de novo. Apelava para a televisão. Corria mais um pouco.

Cansada, essa mãe sentia esgotar seu repertório de brincadeiras. Mas ao olhar o relógio entre uma atividade e outra, percebia que era só meio dia. E as crianças orbitando em torno da mãe pareciam querer sempre mais.

Aí está um problema de todas nós, mulheres com filhos. Solução? Receita mágica? Não tem. Cada idade tem sua demanda. Cada criança tem suas preferências e desejos. E o que não deveria acontecer é as crianças se tornarem um fardo. Elas precisam de nós. Mas você já pensou o quanto nós precisamos delas? Elas são a conexão para não esquecermos que somos humanas, cansamos, temos limites. Mas que também temos criatividade, riso fácil, um corpo para explorar.

E quando é que a gente esqueceu de tudo isso? Vamos olhar para a nossa trajetória. Crescemos, passamos batom, colocamos um salto e ficamos de olho na expectativa que os outros tem sobre nós. O mundo profissional nos exige conhecimentos, técnica e máscaras. Sim, máscaras porque muitas vezes deixamos de ser nós mesmas para sermos apenas adultas com suas responsabilidades e prazos.

E aí vem as crianças. E começam nossas dores. Deixamos de nos permitir sentar no chão. Quantos adultos já encontrei que não estavam confortáveis para tirar o sapato e fazer uma careta bem feiosa, sem medo de parecer ridículo ou bobo.

Não, não tem receita mágica. O único conselho é: quando estiver com suas crianças, se permita ser o que quiser. A sua imaginação está lá, guardada em algum lugar. Acredite que ela existe sim. Você só precisa começar a acessá-la. Vestir um chapéu qualquer, entrar no castelo feito com lençóis e cadeiras no meio da sala e fazer a risada de bruxa pode ser o primeiro exercício.

Parece difícil? Tem outro caminho mais fácil. Nas minhas longas conversas com adultos que se sentem sobrecarregados pelas exigências das crianças, gosto de fazer uma pergunta: qual era sua brincadeira predileta quando criança? Invariavelmente, depois de alguns segundos pensando, as pessoas desaguam uma enxurrada de memórias.

Dificilmente é uma brincadeira só, pois cada fase da infância teve sua aventura. E mergulhar nessas lembranças nos conecta de uma maneira incrível com as nossas crianças. Rende muitas conversas.

Você já contou para os seus filhos que você também foi criança e do que gostava de brincar? E que tal ensinar a eles essas brincadeiras prediletas? Lembre que as crianças são seres cheio de conhecimentos e deixe que elas também ensinem para você as suas brincadeiras preferidas.

A vida precisa ser mais leve. Permita-se brincar.