Brincar é coisa séria, inclusive com comida!

Você tem aflição ao ver um bebê colocando as mãos em um bom prato de comida ou, ainda, angustia-se com o desperdício que isso vai causar? Hoje, estou aqui para conversar com você sobre o quão importante é para uma criança a interação com os alimentos. Eu trabalho bastante com o baby-led weaning, quando a introdução alimentar é conduzida pelo bebê e, então, ele comerá usando suas pequenas mãos.

Mas saiba que as recomendações mais atuais, que constam no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de Dois Anos, indicam que o bebê deve ter a oportunidade de acessar um alimento por conta própria. Assim, mesmo que você alimente o seu filho, é importante que ele não esteja tão passivo nas refeições!

Comer é muito mais do que obter nutrientes e vai além de somente sentir os alimentos na boca, para que sejam engolidos. Para quem está começando essa descoberta, ter um pedaço de brócolis ao seu alcance significa conhecer sua cor verde e seu formato, que envolve um caule liso e a flor bem crespa. Significa associar aquilo que ele observa com um aroma e perceber como esse alimento pode se transformar a partir da sua força. O bebê será desafiado a levar essa hortaliça à boca para, então, novas descobertas acontecerem. Aquilo que ele entende por um brinquedo possui um sabor e solta pedaços, que poderão ser amassados pelas fortes gengivas e, então, percorrerão sua boca com
o auxílio da língua. Quantas conexões cerebrais acontecem a cada experiência como essa! Estamos falando aqui de estímulos sensoriais diversos que contribuem para a integralidade do desenvolvimento infantil, não somente para a sua alimentação. Mas contribui sim com a alimentação! Um bebê naturalmente é curioso e explorador.

É nesse contexto que ele desenvolve suas brincadeiras: são investigações sérias em que ele testa suas hipóteses. Quando a refeição, em vez de interromper sua descoberta do mundo (ele tem que parar de explorar para vir à cadeira), possibilita manter a brincadeira, ele está desenvolvendo vínculo afetivo com os alimentos e com o ato de comer, além de formar seus hábitos alimentares. Conforme crescem, essas crianças provavelmente não serão aquelas que tentarão fugir do almoço ou do lanche, porque comer, desde o início, é algo gostoso e não impositivo.

E como lidar com a bagunça que está por trás da interação do bebê com os alimentos? Cada família tem seus limites e possibilidades, mas trago algumas sugestões.

Planejar esse espaço e momento de refeição ajuda: escolha um assento que tenha facilidade em higienização; se o bebê estará de roupas, que sejam as mais simples ou apele para babadores; sabendo que os alimentos irão para o chão, forre-o com algo de fácil higienização pois lhe dará a possibilidade de oferecer novamente aquilo que caiu; e, por fim, ofereça menores quantidades de alimentos (um ou dois pedaços, para começar, está ótimo). E lembre-se: em algum momento, seu filho passará a comer sozinho e, quando isso acontecer, terá bagunça tanto pela sua inexperiência como pela novidade! Então, por que não
cultivar essa possibilidade desde o começo?