Gastona. Era esse o meu apelido quando criança. Palavra repetida inúmeras vezes, em especial pelos homens da minha família. Para eles, eu era uma “descontrolada financeiramente” ainda na infância (sabe-se lá como isso poderia ser se eu não tinha renda alguma). Levei comigo essa sombra pela adolescência, pela idade adulta… vira e mexe ainda ouço brincadeirinhas da família sobre o quanto eu gasto com “coisas fúteis e de mulherzinha” e como eu não tenho nenhum controle sobre o meu orçamento financeiro.

Não importa para a família que eu tenha me especializado em economia, que tenha quatro livros escritos sobre educação financeira e que seja palestrante do tema para famílias. Para eles, eu sou a “super desorganizada”, inclusive nas finanças. Mas adivinha para quem todos pedem dinheiro quando o cinto aperta? Então, se pensou em mim, acertou. Desde sempre, desde quando comecei a ter alguma renda. Na hora do aperto, liga para a Paula que ela sempre tem algum dinheiro guardado. Vai entender…

Psicólogos questionarão se o meu interesse pela educação financeira teria vindo por causa do apelido. Eu não saberia dizer. Mas certamente isso fez e faz diferença no meu modo de ver as minhas finanças. O que vivenciamos na infância levamos para a vida adulta. Alias, mais do que isso: o que vivenciamos na infância molda a nossa forma de ver e de viver o mundo.

Isso quer dizer que os filhos de uma família perdulária se tornarão necessariamente perdulários também? Não. Mas certamente a libertinagem financeira estará presente na vida deste adulto, inclusive pra rechaçá-la sendo sovina.

Quais ensinamentos financeiros vocês estão dando para seus filhos através de palavras, estilo de vida, crenças, hábitos… e até apelidos? Vamos conversar muito sobre esse tema nessa coluna. Como, quando e de que forma começar a envolver as crianças nas finanças da família.

Investimos tanto tempo e dinheiro nas atividades escolares dos nossos filhos, sendo que ter controle da vida financeira é meio caminho andado para uma vida adulta estável. Ter controle significa entender os altos e baixos financeiros que assolam a vida de qualquer um, independente da renda, e estar preparado para os momentos de abundância e de escassez.

Dizem que “sexo” é um tabu dentro das famílias. Mas eu acho que “dinheiro” é um tabu ainda maior, que atinge inclusive maridos e esposas. Eu estou aqui para ir despindo esse medo do dinheiro. E você, vem comigo?

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Paula Andrade, mãe, jornalista, é educadora financeira para crianças.