Outro dia estava conversando com uma amiga doula sobre a tal da expectativa que fazemos do parto. Do quanto as imagens e os nossos posts incentivam essa expectativa. Somos em algum grau responsáveis por isso?

Fato é que a gente só tem uma dimensão do que é o parto quando estamos parindo. Não tem foto, vídeo, matéria, vivência, que vai te fazer chegar perto do que é um parto. Vai te preparar, com certeza, e é muito importante se informar, mas ainda está longe do que é viver a experiência de parir.

Eu acredito que 3 fatores diferentes influenciam nessa experiência: A nossa consciência corporal e preparação pro parto, a forma como nós nascemos e a nossa ancestralidade. Dito isso, fica claro pra mim que a gente pode até tentar controlar o parto, mas esse é um evento incontrolável e que atinge esferas que estão muito além da nossa consciência. E nessa falta de controle pode caber uma mudança nos planos: uma analgesia, uma cesárea intraparto. Ter uma equipe amorosa e atenta às necessidades da mãe e do bebê é o porto seguro dessa mulher nesse caminho estranho, por vezes nebuloso.

Quando a gente vive o parto a gente se cura e cura gerações. Por isso, mesmo sendo tão doloridos, são tão glorificantes. São um portal. E quando a mulher se abre pra passagem de um bebê, seu corpo vai vivenciar um experiência nunca antes vivida e mexer em pontos, células, ossos, pele, de uma forma nova, liberando emoções que estão retidas ali a muito tempo.

Eu penso que nem tudo o que trabalhamos no parto vêm para a nossa consciência. Nós liberamos e assimilamos informações em outros planos. Por isso é tão importante a mulher ter espaço e tempo no seu puerpério para digerir a experiência do parto. Para assimilar e deixar a pele, os ossos, se assentarem novamente e se reorganizarem, junto com uma vida inteiramente nova que está ali se formando.

Ser mãe é um desafio que exige essa reorganização.

O parto é um convite para o desconhecido, que traz muito desafios mas ao mesmo tempo é capaz de expandir nossa consciência e a nossa capacidade de amar de uma forma nunca antes imaginada e que só quem é mãe entende a dimensão disso.

Foto: Lela Beltrão