Eventualmente nos deparamos com esse pensamento na maternidade: se nada mais der certo eu… e completamos a frase com alguma coisa meio absurda. Ou será que não tão absurda assim?

A maternidade nos faz olhar para a vida de uma maneira diferente, especialmente quando ter filhos não é uma atividade tão a dois quanto imaginávamos quando fizemos os filhos. Na maior parte dos casos a sobrecarga recai sobre a mulher, seja porque a maternidade virou voo solo ou simplesmente porque as dinâmicas da nossa sociedade apontam frequentemente para uma mãe que acumula jornadas para ser uma boa mãe enquanto o bom pai tem uma vida muito parecida com a que tinha antes dos filhos.

O fato de mães terem menos tempo para elas leva, em todos os cantos do nosso país, a se perceberem, frequentemente, querendo mudar tudo para ter mais tempo ou mais dinheiro (ou ambos). Se deparar com a nova configuração de vida trazida pela maternidade pode levar as mulheres a uma desesperada busca pela reconquista de seu espaço, do reencontro com quem são, processo potencializado pela quantidade de atividades que elas vão acumulando ao longo dos meses e anos.

A real é que no início essa mulher percebeu que já não conseguia sair com as amigas, depois ela vai percebendo que não precisa mais de vestidos interessantes (todas as mulheres sabem o que são os vestidos interessantes e para que servem) em seu armário porque não vai mais a lugares especiais sem filhos, depois ela começa a perceber que nem se importa muito que ninguém liga mais para ela porque não tem muito tempo mesmo para atender, aí percebe que não há muita compreensão em seu ambiente de trabalho sobre como a vida dela mudou e ela ainda precisa dormir, uma bola de neve.

Bom, essa última parte se ela não for demitida antes de se dar conta.

Ela se olha no espelho e não é que se ache feia, ela não se acha mesmo, não está mais ali a mulher que existia antes. Ela não recebe um elogio, salvo por ser uma boa mãe, o que já considera um feito espetacular porque perdeu um pouco a dimensão de quanto mais que uma boa mãe ela é. Ah, pode ser também que ela não trabalhe, porque não quer, porque desistiu ou porque desistiram dela e percebe que precisa ter uma fonte de renda para garantir que pelo menos seus mínimos desejos sejam atendidos, mas não faz ideia do que fazer a respeito porque o mundo em que ela existia trabalhando está com a porta fechada e aparentemente mandaram trocar a fechadura enquanto ela andava pela casa de madrugada fazendo listas intermináveis do que fazer no dia seguinte, que já começavam no negativo.

Se você se identificou com uma ou com muitas partes desse relato, junte-se às boas. Se permita umas lágrimas e bola pra frente, tamo junta! 

Aí um dia ela pensa, se eu não fizer alguma coisa sobre isso ninguém vai fazer! Parece duro e é, tipo bater de cara numa pedra, mas extremamente necessário para seguir em frente. E mesmo as mães abençoadas que recebem ajuda externa para se reencontrar nesse novo percurso passam por isso em algum momento.

Resumindo bem, essa mãe percebe que ela precisa sonhar, porque sem sonhos não temos muita coisa. E descobre ao mesmo tempo que para sonhar ela vai precisar de tempo e dinheiro, e tem que ser as duas coisas juntas. Normalmente esse insight vem junto com aquele importante momento que todas temos, que é quando cai a ficha que só dá pra ser uma mãe legal quando a gente está legal, senão não rola, porque as nossas crianças aprendem a ser o que a gente é e não o que a gente fala para elas.
E aí, nesse momento de virada que chega para cada mulher num tempo, com mais ou menos revolta envolvida, com mais ou menos depressão sentida, as mulheres-mães querem mudar de profissão, ou arranjar uma profissão, ou estudar outra coisa, ou se jogar no sonho do empreendedorismo e por aí vai, qualquer coisa que dê a elas um gostinho de ser quem são e reconhecer a imagem que olham no espelho todas as manhãs.

O bom disso é que é um impulso interessante, que faz muitas mulheres encontrarem seu propósito e realizarem transições de carreira incríveis, ou que reaproxima mulheres que se tornaram mães de suas antigas profissões com um colorido diferente, com aquela bossa de mãe que só quem já deu muito colo precisando dele tem.

O ruim disso é que, para muitas mulheres, esse momento as afasta ainda mais de seu propósito, do que realmente as faz querer viver e ser. Porque o imediatismo de querer mudar tudo, de querer algo que as complete, essa urgência que a gente sente quando se dá conta que o tempo está passando e não estamos onde queríamos, pode nos levar a procurar onde não tem nada pra achar.

O propósito é o seu lance. É aquilo que você no fundo sabe que nasceu para ser, que te traz satisfação e – importante, rufem os tambores – te dá dinheiro. Isso aí. Quando estamos atuando no propósito somos felizes e recebemos por nosso trabalho. Mas até a ideia disso existir é meio absurda pra algumas mulheres, que ouviram a vida toda que trabalho é dureza, que é assim mesmo, que vão ser atropeladas e desrespeitadas, que “é o que tem pra hoje”. Eu, particularmente, não suporto essa expressão: pra hoje a gente tem o mundo, muitas possibilidades, uma vida inteira de presente. Uma grande bobagem dizer que o que tem pra hoje é se conformar com qualquer coisa.
Não se conforme. Não aceite absolutamente nada menos que merece. Não desacredite de você. Sob nenhuma circunstância!

Ah Ale, mas e a gratidão? A gratidão é a língua do universo você disse esses dias. Sim, ela é, mas deixa ela no lugar dela, de contemplar como sua história te trouxe até aqui. Sinta profunda gratidão por todas as experiências, TODAS, uma vírgula diferente e você não seria quem é. Mas não confunda nunca gratidão com conformismo. Gratidão é entender que tudo que temos é maravilhoso, conformismo é achar que por ter algo bom não temos o direito de sonhar mais. Conformismo é medo do novo, gratidão é contemplação da vida. Alhos e bugalhos.

Encontre seu lugar no mundo amiga mãe. Ele existe, e nele você brilha fácil. Tem alguma coisa muito maravilhosa que só você faz, tem coisas na vida em que você é muito talentosa. Escute seu coração e também seu vizinho, quando lhe diz que você nasceu pra fazer alguma coisa, ele deve ter razão.

E não entre nessa onda de que se nada mais der certo você vai fazer bolo para festa. Se é assim que você completa a frase, eu te convido a revisitar a ideia de fazer bolo para festa antes de perder um monte de tempo tentando fazer coisas que não te completam. Muitas vezes o que dizemos depois do “se nada mais der certo” é alguma coisa que tem todo sentido em nossa trajetória, que somos reconhecidas por fazer (e fazer bem) mas que por alguma crença imaginamos que não ‘dá dinheiro’, que não é reconhecido, que é uma ocupação ‘menor’ que nossa profissão de formação. O segredo do propósito é esse, se você faz aquilo que você entende que nasceu isso vai te trazer prosperidade, é a energia que você coloca nesse trabalho que volta para você como riqueza.

No fim das contas é você com você, o que você ama, faz bem e te pagam para fazer. Esse é o seu lugar, seja construir casa ou fazer brigadeiros. Isso vai te fazer rica e, mais que isso, feliz pra caramba! Nem toda mulher nasceu para empreender, e nem toda mulher vai assar um bolo sem solar, mas todas, TODAS as mulheres, nasceram com um dom especial para serem felizes e espalhar a felicidade. Deixa seu dom aflorar.