Quando a gente fala em fotografar o parto muita gente acha estranho. Até eu, antes de entrar nesse universo, acharia. Compreensível né? Afinal ter alguém ali observando pode parecer invasivo. Mas não é bem assim que acontece. A fotógrafa de parto não precisa ser invisível como muita gente diz, ela faz parte da equipe, entra no fluxo e segue junto, discretamente. Interferindo o menos possível.

Resolvi tocar nesse assunto porque é bem recente esse tipo de registro. Nas minhas pesquisas sobre imagética do parto encontrei poucos (e preciosos) registros: uma matéria de janeiro 1967, com fotos da maravilhosa Claudia Andujar, vídeos do obstetra Claudio Paciornik, que fazia um trabalho em aldeias indígenas, e alguns poucos arquivos de amigos, geralmente caseiros. De fato, esse registro feito por profissionais, tem ganhado força nos últimos 10 anos e vem crescendo.

Mas se formos pensar em outras formas de artes, como pinturas e esculturas, o acervo impressiona. O registro mais antigo de parto encontrado e relatado é do período paleolítico e vem da Turquia, uma escultura da Deusa da Fertilidade (6.500 5.700aC) no ato de parir.

Depois dela temos várias esculturas que mostram o lado animal e orgânico de parir. Esculturas que podem ser muito atuais quando comparamos com mulheres parindo hoje em dia, de forma natural e instintiva.

Depois das esculturas, temos as pinturas. E eu não poderia fazer essa viagem na história do parto sem falar das imagens do parto mais famoso da humanidade. O de Maria de Nazaré, nascimento de Jesus Cristo. Temos várias pinturas feitas por diferentes artistas, cada um retratando `a sua maneira o acontecimento. E provavelmente nenhum chegou perto do que deve ter realmente acontecido. Talvez tenham até alguma responsabilidade por essa imagem “limpa e plástica” que as pessoas tem do parto. Porque parto de verdade tem sangue, tem cocô, fluídos, grito, bagunça. E tudo bem!

Eu gostaria muito de saber como Maria pariu. De cócoras? Em pé? Apoiada em José? Desassistida? Deitada no feno do estábulo? E como era esse estábulo? Quem foi a pessoa que permitiu que uma mulher desse à luz no chão do estábulo? Nas imagens parece tão espaçoso e limpo! Como foram as contrações? A passagem? Como José deu suporte pra Maria?

As pinturas geralmente mostram a família feliz no pós-parto, recebendo a visita dos reis magos (sabemos bem como é receber visitas no pós-parto), num estábulo limpo e sem sinal de sangue. Imagens lindas e limpas que deixam esse registro de parto na nossa memória. Mas que provavelmente foi bem diferente do que realmente aconteceu.

Maria, mãe, mulher. Como foi o parto e a vida pra você?

Vou deixar aqui algumas imagens dessa pesquisa ainda em andamento. E se você tem informações que possam acrescentar a esse estudo sobre a imagética do parto, por favor me escreva!

 

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A Editora Timo deseja Boas Festas a todxs, com segurança, respeito, equidade, ciência, paciência e muito amor!