Esses dias estava conversando com uma amiga e soltei um queria tanto te ver ao vivo e dar um abraço… sim, sou dessas que abraçam apertado e não vejo a hora de agarrar as pessoas de novo. Pode julgar, sou feliz assim, pulando no pescoço das pessoas mesmo.

Aí ela, ex-aluna da Graded que é, para não fugir à regra solta umas frases em inglês no meio da conversa, meio aleatórias, e me respondeu ahhh sim, live! E eu até me arrepiei: pera, para tudo, live não! A risada explodiu do lado de lá e do lado de cá também.

Nesses tempos de isolamento, live virou quase um palavrão. Ninguém tá tolerando muito mais, até ser chamado pra encontro no Zoom, que era uó, já anda sendo melhor que alguém dizer aparece na live. Não, obrigada, sério mesmo.

Enfim, eu e minha amiga falamos um pouco sobre lives e sobre a vida. E sobre a vida das pessoas nas lives, que de ao vivo não tem quase nada, e desligamos. Por enquanto os telefonemas e os longos áudios no whatsapp vão ter que servir pra gente, que tem filho e casa e bom senso de não sair avacalhando. Mas depois que desligamos fiquei com essa coisa das lives na cabeça, por que será que isso que devia ser um pedacinho de coisa boa, uns minutos de alguém ali no ao vivo permitido pelo distanciamento dividindo sua realidade, se tornou o maior pé no saco destes últimos tempos?

Depois de complexas teorias – o excesso de tempo dentro de casa deixa a gente bem predisposto a teorias da conspiração – cheguei numa resposta relativamente simples: ficou chato porque é um ao vivo sem a melhor parte do ao vivo, a espontaneidade.

Porque na real o mais legal de estar com seus amigos, com seu crush e até com seus ídolos ao vivo é que a gente não faz a menor ideia do que vai acontecer em seguida. Pode ser bom e pode ser ruim, a vida é improviso. A festa pode ser boa ou não, pode cair um copo de suco na sua roupa ou você pode ganhar um sorteio, o show pode ser animado ou miado, a pegada do crush pode ser incrível ou obrigada pelo jantar mas tenho que dar comida pro meu gato. Que eu nem tenho.

A questão é que não fazer ideia de que rumo as coisas podem tomar é o que torna o ao vivo muito bom. Até quando é ruim é bom, cria memórias. E as lives tiraram o improviso do nosso ao vivo, o deu ruim, aquela gargalhada da pessoa sem noção na mesa do lado quando todo mundo já está naquele momento de dizer umas verdades. Na live dá sempre tudo certo porque é tudo planejado.

O fundo da tela é planejado, a luz é planejada, às vezes até o que a pessoa vai falar já tem um script. Pelamor, é como se você chamasse alguém pra tomar um café e levasse um caderninho de anotações pra não esquecer nada. É um café não uma consulta com o dermatologista!

Não que na vida a gente não planeje as coisas. Planejar a gente até planeja, mas principalmente depois que tem filhos a gente tem certeza que dar tudo certo como planejado é só uma das possibilidades. Na vida real não tem corte, nem filtro. E você definitivamente não vai de pijama de cetim – até porque eu me questiono muito se alguém dorme mesmo com aqueles negócios engomados que estão rolando nas lives “de pijama”. Pijama, ao meu entender, é outra coisa, e quase sempre te faz parecer um mendigo. Feliz, porém um mendigo.

Isso sem contar as lives de artistas que te levam a pensar que está num bar com os amigos. Pegue sua cerveja, ou para os mais seletivos pegue um bom vinho, e junte-se a nós oito da noite do sábado pra gente fazer um som. Há há há. Primeiro que eu nunca chegaria na hora e a live me tira até o prazer de chegar atrasada, segundo que sem ninguém gritar toca Raul fica meio esquisito e terceiro, mas de suma importância, fica lá o artista dizendo cantem comigo, como se a graça disso não fosse estar todo mundo cantando meio errado ao mesmo tempo. Chega a dar um desespero, faz seu show e pronto, deixa quieto, não precisa ficar lembrando a gente que isso é mais fake que nota de dois reais.

Queremos a vida live de novo, urgente. Todos nós. Ao vivo.

E penso que as lives até poderiam ajudar a anuviar essa nuvem que paira na nossa cabeça quando bate a saudade de estar com todo mundo junto e misturado, só que elas tinham que ser mais como no mundo real, menos ensaiadas e mais vividas. Quem sabe se a galera começasse a fazer lives onde as coisas vão saindo, as ideias vão surgindo, umas coisas meio erradas e estranhas vão acontecendo e tudo bem porque a vida é assim mesmo… sei lá, talvez nesse caso as lives voltassem a ser legais. Porque no começo eram, ninguém sabia fazer a parada profissionalmente, saia uns filtros errados do nada. Quem não lembra do padre que disparou os emoticons no meio da missa? Era tudo meio cagado e muito mais divertido. Depois, bom… depois enlatou e ficou tudo parecido, tudo meio perfeito com um ring light e um fundo instagramável, tudo chato pra cacete.

Na boa, ninguém quer problematizar na sexta noite, a gente queria mesmo era falar um monte de besteira com nossos amigos, beijar e abraçar quem bem entendêssemos. Enquanto ainda não dá pra fazer isso que as lives sejam divertidas de novo, ou deixa gravado e cada um assiste quando quer.