Confiança é uma daquelas características que quase todas as mulheres desejam para si mesmas. Ela é algo precioso para nossa saúde mental. Mas quando a notícia do distanciamento social chegou, vi minha autoconfiança escorrer entre meus dedos. Nos primeiros dias, mal consegui pensar em acolher meus medos e insegurança, porque eu estava diante do impensável. O impensável que poderia levar embora minha família. Assim, chorei por cada tia velhinha que tenho; principalmente ao imaginar que por estar distante delas, não haveria despedidas. Aliás, não haveria nem encontros! Que barra! Isso sem contar no impensável de não ter como sustentar uma família sem ter trabalho. Me sentei no sofá sozinha várias vezes tentando entender esse momento frágil, sombrio, mas carregado de presentes.

Eu estava viajando a trabalho quando tudo começou! Me lembro da sensação de querer voltar para casa, abraçar minha filha e ao mesmo tempo, ter um medo enorme de voltar de abraçá-la! De novo, o lado sóbrio do medo projetando que eu contaminaria minha filha, meu marido… Uma fantasia com uma luta real! Impensável! Os dias foram passando, o medo foi ganhando outros significados e eu reencontrando força. Organizei o trabalho, a casa e deixei a vida acontecer como deveria.

Isso não significa que não houve dias de chorar juntos. Não! Choramos os três abraçados após orarmos por nossas famílias. Choramos juntos em muitas orações na hora de abençoar o alimento na nossa mesa. Choramos pelos aflitos e famintos. Também houve os dias de silêncio total na casa, cada um em um canto, sem se ver e sem se tocar. Cada um em sua vida online.

Aliás, logo na segunda semana de escola em casa, em um almoço, notei que a alergia atópica da Melissa estava grave. O braço já estava em carne viva e eu, como psicanalista, comecei a analisar situação. Fui até o quarto dela e vi uma folha cheia de cálculos apagados e com gotas úmidas no papel; na hora notei que ela havia chorado. Eu senti muita coisa naquele momento, me culpei por estar em casa e não poder ajudá-la (eu atendo em média 10 horários por dia).

Percebi com tristeza o quanto para ela estava difícil não ter os professores por perto. Com raiva, desejei criar uma greve estudantil na sala dela. Falei com outras mães, que nem me deram ouvidos. Por fim acalmei minha culpa e raiva e fui cuidar dela. Deixei bem claro que nada disso era culpa dela, que ter boas notas era ótimo, mas que sua preocupação deveria estar em se concentrar em fazer o possível. A partir desse momento, eu comecei a enxergar os presentes, como beijar e abraçar minha filha às 15h em uma segunda-feira qualquer. O conselho dado a ela caiu muito a mim. Parece que esse tombo que estamos tomando da vida nos coloca também para experimentar a coragem: ora com dor, ora com alegrias.

Monica Pessanha, 40 anos, mãe da Melissa, vive em São Paulo, SP, é psicanalista e autora do livro “Educando filhos para a vida”.