A alimentação das crianças está sempre entre as maiores preocupações das mães e dos pais. Sempre. A preocupação começa mais ou menos no primeiro dia que as crianças iniciam a introdução alimentar e vai, ao que me parece, até eles chegarem à casa dos cinquenta anos, quando mães e pais parecem relativizar um pouco a questão.

No começo é o jeito de comer que preocupa. Como oferecer o alimento? Junto com uma enxurrada de informação sobre métodos de introduzir a comida na vida dos bebês vem a informação de que devemos manter a alimentação o mais saudável possível pela maior quantidade de tempo, o que é livremente traduzido como dar apenas frutas e comidas simples e sem muito tempero até um ou dois anos. Mas não é bem isso que é alimentação saudável, hoje já entendemos que saudável mesmo é a comida que tem a ver com a vida e a realidade de quem come, seja criança ou adulto, e ainda que os cuidados com excessos devam ser maiores para os pequenos porque estão formando o paladar, eles devem ter acesso à comida da família, aos alimentos que preenchem o estômago e o coração.

Depois dos primeiros meses de atenção redobrada com a alimentação mães e pais relaxam um pouco e se entregam ao bom e velho: “o importante é que coma”. A partir daí tudo flui mais leve. Especialmente quando se entende que comendo tudo bem – contanto que coma se tiver fome, se não tiver tudo bem não comer também.

Independentemente do formato escolhido para a alimentação, sejam as tradicionais colheradas ou aquele BLW que traz um colorido especial para a sala de casa e comida nas paredes, já se sabe que o mais importante é que a criança coma com a família. De preferência na mesma mesa e com os mesmo pratos e talheres, porque o ato de se alimentar gera pertencimento. E pertencimento é o que todo mundo, de toda idade credo e classe social quer. Seres humanos querem pertencer, é disso que somos feitos.

Só que a busca pela alimentação que é atraente para a criança e gera pertencimento, que permite o momento do comer em família sem grandes estardalhaços, pode levar a uma cilada para mães e pais embalada pra presente. O nome dela? Ultraprocessados.

Os bichinhos nem de alimento são chamados atualmente, o nome deles é produto alimentício. Tipo alimento, só que não. São produtos que passam por muitos processos antes de chegar à nossa geladeira/mesa, tantos que descaracterizam eles como comida de verdade.

O consumo de ultraprocessados traz um monte de questões para refletirmos. A primeira e bem óbvia é a questão da saúde, porque não é lá muito saudável comer

alimentos que não são chamados de alimentos, e que já perderam muito de sua capacidade nutricional antes mesmo de chegar até nossas casas. Ainda que muitos ultraprocessados venham vestidos pra festa, com embalagens lindas que apontam vitaminas e sais minerais (em sua maioria adicionados artificialmente porque os do alimento que começou o processo já eram) tem muito reboco, eles não são equivalentes a comida natural.

Sob nenhuma circunstância. Uma salsicha sempre será uma salsicha, um bife sempre será um bife, e um chocolate… bom, tem que dar uma olhada no rótulo, porque tem muito composto de gordura, açúcar e outros paranauês se passando por chocolate. Pois é, não temos mais sossego nessa vida!

Mas, por mais que pareça chato, consultar o rótulo é importante pra caramba. Saber o que a gente come é primordial pra ter uma alimentação boa e, pra saber o que você está comendo, quando se tratam de industrializados em geral, vai ter que ler além do título, o que tem mesmo dentro da embalagem está ali nas linhas pequenas. O rótulo é nossa boia de salvação nesse mar de mentirinhas e mentironas com aroma artificial de caramelo.

Se parar pra pensar, esse movimento já começa quando a criança nasce. Nossa primeira treta alimentar enquanto mães e pais é com os leites artificiais que se passam por um “substituto” do leito materno, quando não se promovem como se fossem até melhores.

Veja bem meu bem, é praticamente uma carroça se passando por um conversível e, convenhamos, ainda que a carroça também não tenha teto ela devia dar uma segurada nessa ambição toda. As coisas são o que são ou não são, ultraprocessado não é alimento. Só que a questão dessas coisinhas enfeitadas, porém meio ocas, dos ultraprocessados vai além e esbarra na cultura alimentar.

E aí mães e pais precisam ter muita atenção à história do que se come para escapar dessa armadilha. Por que comemos o que comemos? Porque aprendemos a comer estas coisas. Simples assim. E as crianças comem o que seus pais e cuidadores comem, depois o que os amigos comem e por aí vai. Ainda que não comam junto, o exemplo ensina e fica. Até porque, a necessidade de pertencimento fala alto nessas horas.

Se a gente aprendeu a comer sem avaliar, a descontar tristeza e frustração na comida e a ir na onda do desembalar é mais fácil que descascar é porque podia ter aprendido diferente. Esquece o julgamento e abraça que seus pais fizeram o melhor que podiam e sabiam em sua realidade, mas é exatamente aí que está a resposta. Se permitirmos que as crianças tenham acesso a alimentos saudáveis e façam escolhas conscientes elas criam uma cultura alimentar boa. Se elas verem nossas escolhas próximas ao que oferecemos a elas se reconhecerão nesse comportamento. Nesse caso você não precisa arrancar os cabelos quando a cria for sozinha naquela festinha de aniversário, porque ela sabe o que é bom pra ela, você a ajudou a aprender.

Só que ATENÇÃO, quando eu falo em criar cultura alimentar de qualidade não tem a ver com proibir! Na verdade, esse é o caminho do abismo, e costuma terminar com uma mãe em pânico ao descobrir que a cria foi fazer trabalho na casa dos amigos e comeu quatro cachorros-quentes e duas dúzias de brigadeiros. A mãe do amiguinho ainda achando que é a própria reencarnação do buda por ter permitido que aquela criança se empanturrasse de docinhos já que ela disse que em casa não podia. Em casa tem que poder tudo gente, principalmente tem que poder conversar sobre qualidade e quantidade de comida. Proibido é mais gostoso, já era na nossa época, aceite.

Sobre os ultraprocessados tem mais um detalhe em que eles fazem um estrago danado, e aí é com a família toda não só com os pequenos. A quantidade de ingredientes que eles trazem pra dar um sabor especial e viciam não é brincadeira – apesar de muitos virem com personagens infantis ilustrando. Quando condicionamos nosso paladar a este tipo de aditivo, criado pra disfarçar o gosto de nada do ultraprocessado, a comida de verdade começa a perder a graça porque nosso paladar vai se alterando. Isso é muito mais sério do que parece, quantas pessoas simplesmente não conseguem cozinhar sem um caldo daqueles quadradinhos porque acham que tudo fica sem gosto. Pois é, fica sem o gosto do quadradinho, só isso, e sem uma quantidade obscena de sal, mas nosso corpo acostumou tanto que não acha graça.

Sabe o que não tem graça? Com a variedade de alimentos que temos nessa vida optar por produtos que nos adoecem, física e emocionalmente. Porque falta de comida com alma também entristece nosso coração.

A graça da comida tem que estar nos sabores que a vida nos oferece e nas pessoas com quem compartilhamos a mesa. As crianças merecem ter este prazer e é nosso papel criar possibilidades para que percebam que comer e cozinhar são atos de amor. De quebra melhoramos a nossa relação com a comida também e com as crianças.